Canetas emagrecedoras falsas: como identificar e evitar golpes

Veja quais medicamentos já foram falsificados, os riscos das canetas do Paraguai e como consultar a Anvisa antes de comprar.

O mercado ilegal de canetas emagrecedoras cresceu junto com a procura por medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.

Esses produtos são oferecidos em redes sociais, grupos de mensagens, sites, marketplaces e até por pessoas que viajam ao Paraguai. O preço costuma ser menor, mas não existe garantia de que a caneta tenha sido fabricada, transportada e armazenada corretamente.

Em alguns casos, o produto contém uma dose diferente da informada. Em outros, pode não ter o princípio ativo ou conter uma substância completamente diferente, como insulina.

A Anvisa já confirmou falsificações de Ozempic, Mounjaro e Rybelsus. A Agência também proibiu diversas marcas de tirzepatida sem registro no Brasil.

Todo medicamento irregular é falsificado?

Não. Existem diferentes tipos de irregularidade:

Situação O que significa
Falsificado Imita uma marca verdadeira ou adultera a origem, a composição, a embalagem ou o dispositivo.
Sem registro Não foi avaliado e autorizado pela Anvisa para venda no Brasil.
Contrabandeado Entrou no país sem cumprir as exigências sanitárias e de importação.
Manipulado irregularmente Foi produzido ou vendido fora das regras aplicáveis às farmácias de manipulação.
Experimental Ainda está em estudos clínicos e não pode ser vendido como tratamento.
Abaixo do padrão de qualidade Pode ter o princípio ativo, mas apresentar concentração, pureza, esterilidade ou conservação inadequadas.

Para o paciente, todas essas situações representam risco. Mesmo um produto com o princípio ativo correto pode causar problemas se estiver contaminado, tiver uma dose maior que a indicada ou tiver perdido a estabilidade durante o transporte.

Qual é o tamanho do problema no Brasil?

Não existe uma estimativa confiável da porcentagem de canetas falsas em circulação. As apreensões mostram que o mercado ilegal é grande, mas não permitem calcular quantos produtos chegam aos pacientes.

Entre janeiro e abril de 2026, ações da Anvisa e da Polícia Federal:

  • apreenderam mais de 1,3 milhão de unidades de medicamentos injetáveis irregulares;
  • interditaram 8 dos 26 estabelecimentos avaliados;
  • identificaram R$ 4,8 milhões em transações irregulares;
  • encontraram tirzepatida suficiente para produzir mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis;
  • apreenderam mais de 17 mil frascos de tirzepatida manipulados irregularmente;
  • identificaram retatrutida em três estados.

Esses números podem incluir partes de uma mesma investigação e não devem ser somados como casos separados. Ainda assim, mostram uma cadeia que envolve importadores, farmácias de manipulação, clínicas e vendedores que atuam pela internet.

A Anvisa também informou que mais de 100 kg de insumos para manipulação de agonistas de GLP-1 foram importados somente no segundo semestre de 2025. Segundo a Agência, essa quantidade seria suficiente para aproximadamente 20 milhões de doses.

Entre os problemas encontrados nas fiscalizações estão falhas de esterilidade, deficiência no controle de qualidade e uso de matérias-primas sem origem e composição comprovadas.

Quais medicamentos já foram falsificados?

Ozempic

A Organização Mundial da Saúde confirmou falsificações de Ozempic relacionadas aos lotes LP6F832, NAR0074 e MP5E511. O produto relacionado ao lote LP6F832 foi detectado no Brasil.

Em outro caso brasileiro, a Anvisa recebeu informações de que canetas da insulina Fiasp teriam sido reaproveitadas e cobertas com rótulos de Ozempic.

O número NP5K174 usado nessa fraude pertencia a um lote verdadeiro. Isso mostra que consultar somente o número do lote não é suficiente, porque falsificadores podem copiar informações de produtos originais.

Mounjaro

O Mounjaro aparece em vários alertas recentes da Anvisa. Entre 2025 e julho de 2026, foram identificadas unidades suspeitas ou falsificadas associadas, entre outros, aos seguintes lotes:

  • 082024;
  • D838878;
  • D838838;
  • D856831;
  • D880730;
  • D840678;
  • D719674C;
  • 855044;
  • D880403;
  • MJR 257;
  • D854901.

Nos casos mais recentes, foram encontrados impressão borrada, número serial incompatível, dispositivo diferente do original, falha na leitura do código 2D e até o erro de grafia “soluction” no lugar de “solution”.

Essa relação não é uma lista completa. Novas falsificações podem usar outros números ou copiar lotes verdadeiros.

Rybelsus

O Rybelsus contém semaglutida, mas é vendido em comprimidos, e não em caneta.

A Anvisa determinou a apreensão de produtos falsificados relacionados aos lotes M088499 e, posteriormente, N088499 e P08A472. O caso mostra que o problema não está restrito aos medicamentos injetáveis.

Quais marcas estão proibidas ou não têm registro?

A Anvisa já publicou medidas contra diferentes produtos anunciados como semaglutida, tirzepatida ou medicamentos semelhantes.

Entre os nomes atingidos estão:

  • T.G. 5, TG e T.G. Indufar;
  • Lipoless, Lipoless Éticos e Lipoless MD;
  • Tirzazep Royal Pharmaceuticals;
  • Synedica;
  • Tirzec e Tirzec Pen;
  • Lipoland;
  • Gluconex;
  • Tirzedral;
  • Slimex;
  • Rapha Tirzepatide/Pyroxidine;
  • Tirzepatide There;
  • Tirzemax;
  • Ozempic Power;
  • Mounjmax;
  • Maxtwo + 3D Slim e Maxtwo Detox.

Dependendo do caso, esses produtos foram classificados como sem registro, de fabricante desconhecido, importados irregularmente ou produzidos fora das regras sanitárias.

A lista muda à medida que novos produtos são encontrados. Antes de comprar, é necessário consultar a situação atual no sistema da Anvisa.

E as canetas de retatrutida?

A retatrutida ainda é um medicamento experimental. Até julho de 2026, ela não estava aprovada para venda em nenhum país.

Isso significa que qualquer site, perfil ou vendedor que ofereça uma “caneta de retatrutida” está comercializando um produto irregular. Não existe versão comercial legítima disponível em farmácias.

As canetas do Paraguai são iguais ao Mounjaro?

Não foi demonstrado que sejam iguais.

Uma investigação da Folha de S.Paulo comprou amostras de Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex anunciadas no TikTok, Instagram e WhatsApp. Testes realizados pela Unicamp identificaram tirzepatida nas cinco amostras.

Entretanto, os testes não avaliaram:

  • esterilidade;
  • contaminantes;
  • metais pesados;
  • todas as possíveis impurezas;
  • condições de fabricação e transporte;
  • eficácia e segurança em pessoas;
  • bioequivalência com o Mounjaro.

A amostra de Gluconex apresentou uma concentração aproximadamente 60% maior que a amostra de Mounjaro usada como referência.

Por isso, encontrar tirzepatida em uma amostra não prova que o produto seja seguro, eficaz ou equivalente ao medicamento original. A Anvisa esclareceu que as canetas paraguaias analisadas não demonstraram equivalência com os produtos registrados no Brasil.

Também não existe reconhecimento automático entre os registros dos dois países. Um medicamento autorizado no Paraguai precisa obter registro da Anvisa para ser comercializado regularmente no Brasil.

O que as pesquisas encontraram nas vendas pela internet?

Um estudo publicado no JAMA Network Open investigou sites que ofereciam semaglutida sem receita.

Os pesquisadores analisaram 1.080 resultados de busca. Entre os links de farmácias encontrados, 42,3% direcionavam para sites considerados ilegais.

Foram feitas seis compras:

  • três vendedores não entregaram nada e tentaram cobrar pagamentos adicionais;
  • três enviaram frascos não registrados;
  • os três produtos recebidos apresentaram endotoxinas;
  • a pureza encontrada variou de 7,7% a 14,37%, embora os rótulos anunciassem 99%;
  • a quantidade de semaglutida estava entre 28,56% e 38,69% acima do valor informado.

O estudo foi pequeno e não analisou especificamente o mercado brasileiro. Mesmo assim, ele mostra por que um produto não pode ser considerado seguro somente por conter semaglutida.

Também existe um relato clínico de uma mulher que entrou em coma hipoglicêmico após aplicar um produto comprado pela internet como Ozempic. A análise encontrou insulina no lugar de semaglutida.

Como evitar uma caneta falsa?

Antes de comprar, siga estes cuidados:

  1. Tenha uma prescrição válida. Desde junho de 2025, a venda de agonistas de GLP-1 exige receita em duas vias, com retenção de uma delas pela farmácia.

  2. Compre somente em farmácia regularizada ou em seu site oficial. Não compre de vendedores em redes sociais, grupos de mensagens, pessoas físicas ou anúncios de terceiros em marketplaces.

  3. Exija nota fiscal e a caixa completa. Não aceite dose avulsa, seringa preenchida, frasco aberto ou caneta sem a embalagem original.

  4. Consulte o medicamento na Anvisa. Verifique nome, fabricante, princípio ativo, concentração, apresentação e situação do registro.

  5. Consulte os alertas e produtos irregulares. Pesquise pelo nome comercial e, quando disponível, pelo lote.

  6. Confira caixa e dispositivo. Lote, validade, concentração e número serial devem coincidir.

  7. Observe o idioma. Um medicamento vendido regularmente no Brasil deve ter rotulagem e orientações aprovadas em português.

  8. Desconfie de preço muito baixo. Pagamento por Pix para pessoa física, ausência de nota fiscal e promessa de envio sem receita são sinais de alto risco.

  9. Pergunte sobre a conservação. Esses medicamentos precisam seguir as condições de armazenamento e transporte descritas na bula. Uma caneta original também pode ficar inadequada se for mal conservada.

  10. Não confie somente no QR Code ou no lote. Essas informações podem ser copiadas de embalagens verdadeiras.

Boas avaliações no Mercado Livre ou em outra plataforma também não comprovam a composição, a esterilidade ou a conservação de um medicamento.

Como conferir o produto na Anvisa?

Acesse a Consulta de Medicamentos da Anvisa e procure pelo nome ou pelo número de registro apresentado na caixa.

O resultado deve aparecer como ativo ou válido. Confira se o fabricante, a concentração e a apresentação são exatamente os mesmos da embalagem.

Depois, pesquise o produto na Consulta de Produtos Irregulares e na Consulta de Alertas Sanitários.

O fato de uma marca ter registro não confirma que a unidade em suas mãos seja verdadeira. A falsificação pode usar o nome e até o lote de um medicamento registrado.

Quais sinais aparecem nas embalagens falsas?

No caso do Ozempic 1mg vendido no Brasil:

  • a caneta original é azul-clara e tem botão de aplicação cinza;
  • uma caneta azul-escura com botão laranja pode ser uma caneta de insulina Fiasp readesivada;
  • o seletor da apresentação de 1 mg deve mostrar apenas 0 e 1 mg;
  • não existe adesivo oficial de “nova fórmula”;
  • a OMS alerta que algumas falsificações têm uma escala que sai para fora do corpo da caneta ao selecionar a dose.

No caso do Mounjaro, os alertas recentes envolveram:

  • impressão borrada;
  • dispositivo diferente do original;
  • número serial não reconhecido;
  • código 2D que não funciona;
  • erros de grafia no rótulo.

As embalagens legítimas podem mudar. Uma diferença visual deve levar à suspensão do uso e à consulta ao fabricante, mas não é suficiente para confirmar uma falsificação.

A Novo Nordisk mantém uma página com orientações para identificar o Ozempic original. A Eli Lilly oferece o LillyScan para ajudar na verificação do Mounjaro.

É possível ter certeza em casa?

Não existe teste doméstico capaz de comprovar a autenticidade de uma caneta.

A confirmação depende de:

  • consulta do lote e do número serial nos registros do fabricante;
  • alerta ou resolução da Anvisa;
  • inspeção da Vigilância Sanitária;
  • análise laboratorial de composição, concentração, pureza, esterilidade e contaminantes.

Sentir náusea, perder o apetite ou emagrecer também não comprova que o produto seja verdadeiro. Uma caneta irregular pode ter uma dose excessiva ou outra substância que produza sintomas.

O que fazer se você já comprou?

Não use novas doses enquanto a origem estiver sendo verificada.

Guarde a caixa, a caneta, a nota fiscal, o comprovante de pagamento, as conversas e o endereço do anúncio. Entre em contato com a farmácia, o fabricante e a Vigilância Sanitária.

Não devolva o produto diretamente ao vendedor sem orientação, pois ele pode voltar a ser comercializado.

A suspeita pode ser denunciada pelo Fala.BR. Se houve algum evento adverso, a notificação também pode ser feita pelo sistema VigiMed da Anvisa.

Se o produto já foi aplicado e surgirem sintomas inesperados, como suor intenso, tremores, confusão, convulsão, desmaio, vômitos persistentes ou dor abdominal forte, procure atendimento médico com urgência.

Fontes

Conteúdo informativo. Este artigo não substitui avaliação, diagnóstico ou prescrição médica.

Assuntos deste artigo

  • Anvisa
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